terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Os Coelhos Saíam de Dentro das Rosas

 os coelhos saíam de dentro das rosas...

Pelos em espiral,
floridas em ouro líquido.
não havia cheiro,
apenas cores que se desenrolavam
como fitas,
como labirintos pulsantes.

seus olhos, buracos cósmicos,
capturavam fragmentos de tempo,
e cada salto era uma explosão silenciosa,
uma sinfonia sem som.
os jardins,
agora ondas líquidas de névoa e fogo,
deslizavam sob meus pés
como se o chão fosse apenas
um pensamento antigo,
esquecido.

as pétalas caíam e se abriam
em espiral infinita,
cada uma revelando outra flor,
outro coelho,
em um ciclo que nunca se repetia,
mas se multiplicava,
como o universo em expansão.

as rosas respiravam em versos,
seus espinhos dançavam como guitarras de cristal,
e eu,
me afundava,
não em dor,
mas em êxtase puro,
em ondas de luz que me atravessavam,
como se o tempo fosse um fio
se desfiando no vento.

os coelhos,
agora em milhares,
não mais em minhas mãos,
não mais em meu olhar,
mas no céu,
nas estrelas que piscavam em segredo,
nos sonhos que o universo
esquecia de contar.

e eu,
um espelho de sombra,
um eco do infinito,
me perdi nas rosas,
onde o espaço não existe
e o tempo se dissolve,
em espirais de luz,
onde os coelhos saem,
sempre,
sempre,
do nada.




No Espelho Havia um Coelho

 -no espelho...

havia um coelho,
mas ele não era meu.
era um reflexo que eu não conhecia,
um ser flutuando,
sem tempo,
sem forma.

seus olhos eram dois buracos de luz,
pulsando,
fora da gravidade.
e eu,
tentando alcançá-lo,
me perdi em mim mesma.

ele se virou,
não na direção do meu corpo,
mas no caminho do pensamento.
o coelho fugiu de mim,
não como uma sombra que se estica,
mas como uma ideia que se dissolve,
uma flecha que nunca chega ao alvo.

meu reflexo se desfez,
se tornou uma tela em branco
onde o coelho pintava o futuro
com pincéis de neblina.
ele me observava agora,
não do vidro,
mas do ar,
dentro e fora de mim,
como um eco de algo que nunca aconteceu.

e eu,
perdida no vórtice do tempo,
já não sabia se eu era a caça
ou a caçadora,
se o coelho fugia de mim,
ou se eu fugia de mim mesma.

o espelho virou líquido,
se espalhou como o céu,
e o coelho,
sem corpo,
sem nome,
sem fim,
se dissolveu,
como um pensamento que não pode ser tocado.

Eu Sou a Coelha, Estou no Jardim

 eu sou a coelha,

patas finas,
pelos brancos e sujos de terra,
e o jardim é meu domínio,
meu santuário suprimido.

as flores me olham,
mas não me tocam.
o vento sopra,
mas não é fresco,
é quente, pesado,
como a respiração de algo
que se esconde na sombra.

meus olhos brilham,
não de inocência,
mas de um saber silencioso
que escapa de cada buraco,
de cada raiz que se retorce
sob o chão.

as borboletas se afastam,
o sol já não brilha
como antes,
e a cada passo, o jardim cresce,
engole o caminho,
come a terra,
como se soubesse que eu sou
a última coisa viva
aqui.

não há mais espaço para correr.
não há mais paredes para bater.
sou só eu,
e o jardim,
um lugar perfeito para me perder.

o cheiro da terra molhada
se mistura com algo mais,
algo podre,
e de repente, eu vejo.
os outros.

coelhos,
como eu,
mas não como eu.
com olhos mortos,
dentes afiados,
e um sorriso que não pertence
a ninguém.

o jardim treme.
as folhas se tornam garras,
a grama, dentes.
e eu, a coelha,
eu sou o jardim.

Coelhos no Banheiro

 você acorda com a água fria...

a sensação de estar sendo puxado
para uma corrente invisível.
olha para o espelho.
não há nada.
apenas você.
mas o silêncio é denso,
como se a casa estivesse esperando.

então você ouve.
um som abafado.
um tranco no azulejo.
você não sabe o que espera,
mas sabe o que vem.

no banheiro, eles estão,
mais uma vez.
os coelhos.
agora, mais grotescos,
corpos torcidos,
pelos manchados de algo escuro
que você não quer identificar.

a luz pisca,
um facho de branco iluminando
a criatura mais próxima,
seus olhos agora redondos,
fixos,
como se você fosse a presa
e não o caçador.

eles não se movem,
apenas observam,
e o chão está úmido,
não de água,
mas de algo quente e grosso.
você tenta gritar,
mas a boca fica seca,
como se os coelhos tivessem arrancado
qualquer vestígio de som.

um deles se aproxima,
lentamente,
como se entendesse a sua dor.
você sente a pressão de suas patas
no azulejo frio.
a respiração é pesada,
sua própria carne pulsa em terror,
mas não há como fugir.

eles sabem,
eles sempre souberam,
que o banheiro é o último lugar
onde você quer estar.

no espelho, agora,
um coelho sorri.
mas é você.

Coelhos na Cozinha

 primeiro, o barulho.

um arranhar baixo, metódico,
como unhas no azulejo.
você desce, pés nus,
cada passo uma aposta.

na cozinha, eles estão.
coelhos.
com olhos de vidro sujo
e dentes de porcelana lascada.

uma fila organizada
em torno da geladeira aberta,
como se esperassem algo
que nunca vem.
o cheiro é estranho,
ferro e leite azedo.

um deles vira a cabeça.
lento, quase humano.
as orelhas pendem como cortinas velhas,
e os olhos dizem tudo
sem precisar de palavras:
"vá embora ou fique para sempre."

você não respira,
não pisca.
um segundo ou uma eternidade,
até que um deles se move,
uma pata escorrega na poça de algo
que parece sangue.

o som do relógio na parede
se arrasta como uma lâmina cega.
você recua.
eles não seguem.
não precisam.

voltam todas as noites,
os coelhos,
e a geladeira nunca fecha.

Coelhos no Quarto

 eles estão lá,

pelos cantos,
com olhos que furam a escuridão.
coelhos, sim, coelhos —
não da loja de brinquedos,
não do campo.
eles não se mexem.
observam.

suas sombras são garras no teto,
suas orelhas, antenas que captam
os pensamentos que você tenta esconder.
respiração pesada,
o ar fica denso como a culpa.
você fecha os olhos,
mas ainda sente o peso deles.

não pulam, não mordem.
não precisam.
o terror está no silêncio,
na certeza de que sabem algo
que você não sabe.

um deles mexe a cabeça.
ou talvez não.
seus nervos gritam
e a madrugada estica
como um elástico prestes a arrebentar.

o sol vai nascer
e os coelhos vão sumir.
mas você sabe,
como eles sabem,
que sempre voltam.

Os Coelhos Saíam de Dentro das Rosas

 os coelhos saíam de dentro das rosas... Pelos em espiral, floridas em ouro líquido. não havia cheiro, apenas cores que se desenrolavam ...