primeiro, o barulho.
um arranhar baixo, metódico,
como unhas no azulejo.
você desce, pés nus,
cada passo uma aposta.
na cozinha, eles estão.
coelhos.
com olhos de vidro sujo
e dentes de porcelana lascada.
uma fila organizada
em torno da geladeira aberta,
como se esperassem algo
que nunca vem.
o cheiro é estranho,
ferro e leite azedo.
um deles vira a cabeça.
lento, quase humano.
as orelhas pendem como cortinas velhas,
e os olhos dizem tudo
sem precisar de palavras:
"vá embora ou fique para sempre."
você não respira,
não pisca.
um segundo ou uma eternidade,
até que um deles se move,
uma pata escorrega na poça de algo
que parece sangue.
o som do relógio na parede
se arrasta como uma lâmina cega.
você recua.
eles não seguem.
não precisam.
voltam todas as noites,
os coelhos,
e a geladeira nunca fecha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário