-no espelho...
havia um coelho,
mas ele não era meu.
era um reflexo que eu não conhecia,
um ser flutuando,
sem tempo,
sem forma.
seus olhos eram dois buracos de luz,
pulsando,
fora da gravidade.
e eu,
tentando alcançá-lo,
me perdi em mim mesma.
ele se virou,
não na direção do meu corpo,
mas no caminho do pensamento.
o coelho fugiu de mim,
não como uma sombra que se estica,
mas como uma ideia que se dissolve,
uma flecha que nunca chega ao alvo.
meu reflexo se desfez,
se tornou uma tela em branco
onde o coelho pintava o futuro
com pincéis de neblina.
ele me observava agora,
não do vidro,
mas do ar,
dentro e fora de mim,
como um eco de algo que nunca aconteceu.
e eu,
perdida no vórtice do tempo,
já não sabia se eu era a caça
ou a caçadora,
se o coelho fugia de mim,
ou se eu fugia de mim mesma.
o espelho virou líquido,
se espalhou como o céu,
e o coelho,
sem corpo,
sem nome,
sem fim,
se dissolveu,
como um pensamento que não pode ser tocado.
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