eu sou a coelha,
patas finas,
pelos brancos e sujos de terra,
e o jardim é meu domínio,
meu santuário suprimido.
as flores me olham,
mas não me tocam.
o vento sopra,
mas não é fresco,
é quente, pesado,
como a respiração de algo
que se esconde na sombra.
meus olhos brilham,
não de inocência,
mas de um saber silencioso
que escapa de cada buraco,
de cada raiz que se retorce
sob o chão.
as borboletas se afastam,
o sol já não brilha
como antes,
e a cada passo, o jardim cresce,
engole o caminho,
come a terra,
como se soubesse que eu sou
a última coisa viva
aqui.
não há mais espaço para correr.
não há mais paredes para bater.
sou só eu,
e o jardim,
um lugar perfeito para me perder.
o cheiro da terra molhada
se mistura com algo mais,
algo podre,
e de repente, eu vejo.
os outros.
coelhos,
como eu,
mas não como eu.
com olhos mortos,
dentes afiados,
e um sorriso que não pertence
a ninguém.
o jardim treme.
as folhas se tornam garras,
a grama, dentes.
e eu, a coelha,
eu sou o jardim.
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